“As pessoas gostam de clichê. Essa coisa de a nerd se envolver com o atleta popular é um pote de açúcar e os leitores são as formiguinhas.”

Com mais de dois milhões de leituras no Wattpad, a série As We Collide, escrita pela autora Bianca dos Reis Mesquita, venceu o Whats 2018 na categoria Contemporâneo. Técnica em Enfermagem, 25 anos e moradora de Campinas/ SP, decidiu reescrever a história três anos após sua primeira publicação, em 2015. “A Bianca de 2019 definitivamente não é a Bianca de 2015.”, diz autora em entrevista.

Como nasceu As We Collide? Possui alguma relação com a realidade?

AS WE COLLIDE nasceu em 2015, durante a madrugada. Na época, eu escrevia fanfic do Justin Bieber em outra plataforma. Minha melhor amiga também escrevia, então ela me disse que ia escrever uma fanfic em que uma menina de dezesseis anos já tinha uma bebê com o Justin. Daí eu disse a ela que escreveria uma história contando o que rolou durante a gestação.

É claro que eu comecei a escrever sem qualquer pretensão. A princípio, somente ela iria ler. Depois, acabou que o livro se tornou uma extensão de mim. Os protagonistas, por fim, acabaram se tornando o espelho da minha adolescência. Na época eu ainda estava mal pelo fim do meu relacionamento de quatro anos, então Collide acabou se tornando uma válvula de escape. Era ali que eu descontava as minhas frustrações e a minha dor, por isso há tanta familiaridade entre ficção e realidade para mim. 

A primeira versão da série foi escrita em 2015 e, no entanto, resolveu reescrevê-la. O que houve para que desse um novo formato a história permanecendo com o mesmo enredo?

A Bianca de 2019 definitivamente não é a Bianca de 2015. Antigamente eu tinha vários pensamentos de que hoje eu me envergonho bastante. A versão original possui diversos posicionamentos machistas de vários personagens e isso passou a me incomodar muito. Além disso, também havia uma quantidade gritante de furos no enredo. E, bem, minha escrita naquela época deixou de ser satisfatória para mim. Com o passar desses anos, eu me vi evoluindo como escritora, aprimorando a minha escrita — e eu espero aprimorar muito mais! — e então acabei optando por reescrever. Definitivamente essa é a melhor decisão que eu já tomei.

Você trás temas bem polêmicos: gravidez na adolescência, drogas, sexo, julgo a dizer que até um pouco de feminismo. Por que escrever um livro com esses temas utilizando um enredo clichê?

As pessoas gostam de clichê. Essa coisa de a nerd se envolver com o atleta popular é um pote de açúcar e os leitores são as formiguinhas. Eu acho que aproveitei disso para falar sobre assuntos que costumamos negligenciar. E como a série tem os adolescentes como seu público alvo, é interessante que os livros abordem gravidez na adolescência, drogas, sexo, relacionamentos tóxicos, aborto e etc.

É sempre um alerta, sabe? Um alerta ao fato de que você PRECISA fazer sexo seguro, que NENHUM relacionamento tóxico (seja amoroso, familiar ou entre amigos) vale a sua saúde mental. Tudo o que está sendo abordado na história é escrito como um alerta e nunca como um incentivo.

Eu sei que há muita polêmica nos capítulos. Da série, AS WE COLLIDE é o livro mais complicado de ser lido. Há diálogos fortes que provocam repulsa e ódio, especialmente quando Ryan Andrews está envolvido neles. Os pensamentos do Lionel, o protagonista, normalmente não são fáceis de ler. Ele é um adolescente confuso, arrogante, que faz as coisas pensando apenas em si mesmo.

E eu amo isso. Eu amo o modo como os assuntos são abordados e adoro ver a reação de quem lê.


Apesar de ser dito em todos os livros da série que não se trata de apostas, no segundo livro nós vemos ali que existe sim uma aposta, mesmo que seja entre os garotos. Por que decidiu colocar uma aposta, mesmo não sendo uma aposta de fato (será que deu para entender (risos))? E doeu em você trazer a tona as reais intenções do personagem Lionel no final do livro?

Não existe aposta, nem mesmo entre os meninos. Eu diria que ali entre eles existe uma competição bem idiotinha e nojenta.

O joguinho dos meninos existe desde a versão original. Se eu tirasse isso, então o livro perderia a sua essência. Ainda assim, eu não gosto. Na época, lá em 2015, me pareceu certo, mas hoje eu já vejo de outro modo. Paciência, né? A burrada do Lionel James é o esqueleto da série toda.

Não doeu, mas eu senti muita raiva de mim (risos) por ter colocado isso como o estopim das coisas entre ele e a Kendra.

Os livros têm tido uma recepção muito positiva por parte do público que acompanha a série literária, inclusive foi vencedor do Wattys 2018 na categoria contemporâneo. Como se sente em relação a isso?

Caramba! Na primeira vez que eu postei os livros no Wattpad, eu não tive um retorno tão imenso quanto estou tendo dessa vez. Quando eu resolvi repostar, eu dizia para as pessoas próximas a mim que tinha receio de ninguém ler. Mas daí eu fui surpreendida e hoje eu me sinto realizada, com a sensação de estar indo pelo caminho certo, por ter um retorno tão grandioso a ponto de ser um dos vencedores do Wattys 2018.

Eu só tenho a agradecer aos meus leitores pelo apoio e incentivo maravilhoso.

Sente vontade de transformar a série ebook (wattpad) em uma série de livros físicos?

Sim e não. Eu adoraria que a série fosse transformada em livro físico. Honestamente, os livros ficariam lindos nas prateleiras das livrarias e nas estantes dos leitores (risos), mas ao mesmo tempo eu sinto que Collide pertence ao Wattpad e nenhum outro lugar.

Um ponto muito legal nos seus livros é que você conversa com seus leitores, existem páginas, durante a história, especificas para esclarecimentos de alguns pontos, principalmente o Slut shaming (o mais sensacional de todos). Esses capítulos estavam também na primeira versão? Por que decidiu coloca-los (poderia simplesmente colocar apenas os capítulos da história e deixar de lado os comentários e tudo o mais, as explicações)?

Eu sou o tipo de pessoa que gosta de deixar tudo explicado nos mínimos detalhes para evitar conflitos durante a leitura. É uma pena que grande parte dos leitores passe reto por pura preguiça. A nota inicial contém tudo o que você precisa saber sobre o que está prestes a ler. É tipo bula de remédio, sabe? Vários detalhes importantes antes de você decidir seguir adiante.

O capítulo do slut shaming veio depois de eu ver no Buzzfeed um post sobre as ofensas infantis que não devemos nos esquecer nunca e usar quando for conveniente. Pois bem, eu achei bem conveniente colocá-los no início dos livros. Existe certa descontração por trás desse capítulo, um jeito engraçadinho de dizer que não é legal ofender uma mulher com adjetivos pejorativos pelo modo como ela se comporta, se veste, se comunica e rege a própria vida sexual.

Esses capítulos explicativos não existiam na versão original.

Agora você está escrevendo um terceiro livro. Como tem sido escrever o terceiro volume da série? A história vai terminar ali ou teremos mais um livro para termos um desfecho tão sensacional quanto têm sido a história toda em si?

Tem sido o máximo! Esse terceiro livro é novidade para mim, então eu estou amando. A reviravolta no relacionamento da Kendra e do Lionel, no modo como um vê o outro, ver a protagonista amadurecer como mulher enquanto faz um trabalho incrível sendo mãe mesmo tão novinha. Mas acho que a minha parte preferida é ver o Lionel sofrendo. Ele é a prova de que o carma existe sim (risos).

A série possui quatro livros, então ainda tem muita água para rolar.

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