Felicidade por um fio: muito além do cabelo

Há alguns poucos meses entrou na Netflix um filme chamado "Felicidade por um fio". Eu estava ansiosa para ver essa estreia no catálogo há tempos, desde que vi o trailer pela primeira vez em um grupo de transição capilar no facebook. A identificação foi imediata porque eu tô passando por esse processo após finalmente decidir dar uma chance ao meu cabelo cacheado depois de passar uns nove anos alisando quimicamente o cabelo. E a identificação também veio ao assistir ao filme, com tantos diálogos e cenas em que a gente que é cacheada ou crespa olha e pensa "já passei por algo assim".
Violet Jones (Sanaa Lathan) tem uma vida aparentemente impecável até que um acidente ao arrumar o cabelo faz com que as coisas em sua vida se desenrolem. Ela começa a perceber que estava vivendo a vida que pensava que deveria viver, não a única que realmente queria. Violet começa a descartar algumas coisas que realmente não precisava (começando pelo cabelo alisado) e tenta encontrar um verdadeiro significado para a sua vida. Desde pequena Violet se sentia limitada por não poder brincar como as outras crianças na piscina por causa do seu cabelo, por exemplo. O receio de entrar na piscina, molhar o cabelo e ele ficar "daquele" jeito muitas vezes falava mais alto do que a vontade de brincar. E quando ela finalmente ignorou isso, foi duramente criticada por sua mãe. Aliás, sua mãe foi a grande responsável por toda mania de perfeição que perseguiu Violet até a idade adulta. O cabelo perfeito, o emprego perfeito, o relacionamento perfeito. Estar na zona de conforto parecia muito cômodo para ela, mas na verdade esse era o maior problema de todos. Tentar ser perfeita o tempo todo anulou Violet de quem ela realmente era e o que ela realmente pensava. Seu relacionamento todo pautado em parecer a mulher perfeita para o suposto homem perfeito a fazia gastar muita energia e a desenvolver neuras bobas. Quando Violet tem um problema com seu cabelo num dia 'importante' e em seguida leva um fora do namorado, toda aquela perfeição ilusória que antes era sua vida, desmorona.
Tudo começa pelo desapego ao cabelo. Ela tenta mudar o visual para mascarar um pouco como se sentia mal por dentro, só que a nova cor e corte não duram muito tempo. Após uma noite de bebedeira, num momento meio "surto", Violet raspa o cabelo. A cena é forte e emocionante porque é quase como se a gente estivesse vendo a personagem se livrar não somente do cabelo, mas também de todas aquelas coisas que a prenderam a vida toda. E dá vontade de fazer o mesmo também, honestamente. No dia seguinte, Violet inicialmente surta ao ver o que fez na noite anterior, mas depois de um tempo ela começa a absorver o que está acontecendo consigo mesma e é aí que começa a mudar por dentro. Depois que ela começa a se desprender da obrigação de manter o cabelo alisado e ser a pessoa perfeita em tudo, ela recupera a auto confiança, passa a prestar atenção em outras coisas e pessoas e sua vida começa a mudar sutilmente. Felicidade por um fio é mais do que um filme bonito sobre cabelo ou sobre transição capilar, mas também é também uma história que faz a gente refletir sobre mudanças, sobre autoestima, sobre mudar de dentro para fora e de fora para dentro. É um filme para pensar e -por que não?- para dar aquela força a mais para quem está tentando dar uma chance ao cabelo natural. A gente sabe que não é só um cabelo.

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