Uma quase carta aberta às mulheres

foto: Pablo Albarenga
Em meio a tantos acontecimentos no nosso país, principalmente negativos, tive a vontade de escrever algo aqui. Minhas categorias no Trash Rock não envolvem escrever textos como esse (inclusive nossa redatora maravilhosa Thalícia Sousa fica encarregada dessa área), mas vi a necessidade urgente de abordar a temática. Hoje, sete de outubro de dois mil e dezoito, o país foi às urnas eleger nosso novo presidente e, como muitos já esperavam, aquele que não deve ser nomeado irá para o segundo turno. O que mais me entristece é ver que muitas mulheres compactuaram com isso. Parentes, amigas e conhecidas mostravam com orgulho em quem votariam. E votaram. Votaram naquele que em muitos de seus discursos nos menospreza e nos desvaloriza (sem falar de todas as outras “minorias”). Votaram naquele que prega o discurso de ódio e que se eleito não trará nenhum benefício para elas (e para a maioria da população). O que está feito está feito. Mas hoje, por meio desta carta (se é que posso chamar assim), venho tentar abrir os olhos destas mulheres. Não para mudarem necessariamente de opinião sobre candidatos x ou y, ou partidos de direita ou esquerda, mas para a luta. Para A NOSSA luta. Pelo nosso futuro e de todas as mulheres que ainda irão viver aqui.  
Hoje, vou te contar duas histórias recentes que talvez você não tenha visto, já que provavelmente só o que tem na sua timeline são comentário e fotos de perfil de apoio a candidatos à presidência. 
A primeira história é de Nadia Murad ganhadora do Prêmio Nobel da Paz deste ano que juntamente com o médico congolês Denis Mukwege, que atende mulheres vítima de violência sexual no Congo, lutam contra a violência sexual como arma de guerra. Nadia teve sua vila, no norte do Iraque, atacada por jihadistas. A região por ser habitada principalmente por Yazidis, comunidade etnico-religiosa curda, virou alvo do Estado Islâmico e foi massacrada. Os jovens que não foram mortos foram sequestrados, os homens para serem treinados e as mulheres para serem escravas sexuais. Nadia foi uma delas. Ela ficou por três meses sofrendo agressões e abusos sexuais até que conseguiu fugir e se refugiar na Alemanha, mas estima-se que outras 5 mil mulheres ainda estejam passando pelo mesmo que ela viveu. Desde de que saiu de seu cativeiro, Murad viaja o mundo tentando chamar atenção para a causa e uma de suas maiores conquistas foi ter ganho o Prêmio Nobel da Paz. Em entrevista à revista Marie ClaireNadia dá alguns detalhes do que passou e conta que muitas mulheres tentam se matar após serem raptadas. Ela também fala sobre suas sobrinhas, também sequestradas, e que não tem notícias sobre elas (mas o tradutor que estava na entrevista diz que uma delas morreu ao tentar fugir e a outra foi gravemente ferida e teve seu rosto desfigurado em uma explosão). 
A segunda história aconteceu hoje, 7 de outubro, em Washington, D.C. Várias mulheres se juntaram para protestar contra Brett Kavanaugh após ser confirmado juiz do Supremo Tribunal, indicado por Trump, mesmo sendo acusado por assédio sexual. A professora Christine Blasey Ford, em julho deste ano, alegou que Kavanaugh tentou estuprá-la em 1982, em uma festa quando os dois estavam no Ensino Médio, mas o caso só veio à público quando o juiz foi indicado à Suprema Corte. Após o relato de Christine, outras mulheres também o denunciaram. Além do protesto de hoje, outro foi feito no dia 4, também deste mês, em que várias mulheres foram detidas, entre elas as atrizes Amy Schumer e Emily Ratajkowski. 
foto: Bárbara Conceição
Essas são histórias que aconteceram com duas mulheres e que acontecem diariamente com muitas outras. A diferença entre elas é que tanto Nadia quanto Christine estão sendo vistas de certa forma, mas infelizmente muitos outros casos não são noticiados. Essas outras mulheres não recebem apoio de hashtags ou ganham prêmios, elas são silenciadas. Vivemos em sociedades diferentes. A realidade brasileira não pode ser comparada a do Oriente Médio, nem a realidade americana a qualquer outra no mundo. Mas o que todas nós podemos ter em comum, independente do que passamos, é nossa força. Força essa que é transformadora. Só nós sabemos o medo que passamos, as situações constrangedoras, a violência, a intolerância e a luta que batalhamos dia após dia, em situações pequenas ou gritantes, para encarar isso. Ir às urnas é uma conquista de nossas irmãs. Uma conquista de luta. Todos os direitos que temos hoje (e que deveríamos sempre ter tido) são resultado de batalhas. Batalhas só nossas e o seu ato de votar no dia de hoje vem do sangue e do suor dessas inúmeras mulheres. Hoje, votar em alguém que nos priva de crescer e conquistar tudo o que nós merecemos, de ter direitos iguais e (se você for de um futuro muito distante e ler isso, acredite) de simplesmente sermos respeitadas como seres humanos é um retrocesso gigantesco. Hoje, eu só peço a você para pensar fora da bolha que você pode estar. Pensar que a sua história de batalhas é tão importante quanto a de todas as mulheres. E que, às vezes, nossos privilégios podem dificultar que enxerguemos além. Mas, por favor, não deixemos que eles nos impeçam de ver a realidade de quem está ao nosso lado e de ter empatia por essas pessoas. Não fechem os olhos ou acreditem na ideia de que está tudo bem já que “não lhe afeta”. Porque sim, afeta. E, por fim, não temam. Lutem. E a maneira mais simples de luta está aqui, na nossa democracia. Em que sua escolha pode fazer a diferença, não só para você, mas para toda uma sociedade. 

Para nós, viver é resistir. E resistir é uma luta diária. E só podemos fazer isso juntas. 
Nenhuma a menos. 

Fátima França 
PS: Peço que você que leu essas duas histórias, tire um tempo do seu dia para procurá-las no Google e obter mais informações sobre os casos. E também ir além, tentar trazer visibilidade aos casos silenciados e apoiar a luta, a NOSSA LUTA.

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