Mãe

Quando eu era mais nova eu queria ser você. Eu queria ter os cremes, as maquiagens e os perfumes que você tinha. Queria ter pernas tão compridas quanto as suas, só pra poder usar calça de cintura alta como você fazia. Eu queria saber interagir com as visitas como você, ao invés de parecer uma bicho do mato. Eu era apaixonada por você e queria ser igualzinha.

Só que ser igual a você não era possível, porque você é você. E você tem um cabelo e tom de pele diferentes do meu. E eu era criança demais pra ter pernas compridas. E você era forte, inteligente e focada. Eu era avoada e só queria ver TV e brincar. E quando eu era criança, você já era uma mulher, e eu até hoje espero isso acontecer. 
E você não era só você. Você era aquela que ‘’na sua idade eu já trabalhava’’. Você era a irmã quase mais velha que ajudava a cuidar de três irmãos e da casa. E que casou quase com a idade que eu tenho hoje. E que já tinha dois filhos homens antes deu nascer. E um emprego como professora. E que sempre quis ter uma filha menina pra que ela te ajudasse a arrumar a casa, e que pudesse arrumar o cabelo e escolher as roupas que ela vestiria. 
Então, eu nasci. Mas pelo que você sempre disse, eu não gostava que me arrumassem. E preferia ter outras prioridades ao invés de arrumar a casa, e ainda perguntava porque os meus irmãos não faziam isso ou tinha que ser sempre eu. E você não gostava disso. Então, a gente foi ficando meio longe. 

Só que você era a criação de gerações antes da minha, que foi ensinada que mulher ficava na cozinha e arrumando a casa. Você era 28 voltas em torno do sol antes deu chegar. E era as pressões do trabalho. E o medo de errar como mãe. E era a mulher, a filha e a esposa. Então, é óbvio que você ia querer me ensinar o que aprendeu como certo. Mas eu fui dura e injusta.
Até porque você, desde que eu me entendo por gente, toma conta de tudo e de todos, e sempre teve autonomia financeira e deu a palavra final. Você sempre dizia que não podia adoecer nunca, porque precisava ta bem pra tomar conta de todo mundo. Mas, claro, você ficava doente. E ainda assim, trabalhava fora, e cuidava da gente, e cuidava de si mesma, e cuidava da casa. E como se não bastasse, ostentava um jardim cheio de plantas vivíssimas que eu, hoje, cuidando só de mim, mal consigo manter um cacto vivo.
Logo você, que sempre que viaja e entra em uma biblioteca, liga perguntando se eu quero algum livro. Você, que quando eu era mais nova me trouxe a trilogia de A Seleção. Você, que por vezes, diz que eu sou bonita. E que é sempre sincera comigo e diz que eu não sou boa em algumas coisas. Você, que disse que eu deveria escolher o curso que hoje eu tô fazendo, numa época que eu era ainda mais perdidinha. Acho que você acertou e que eu tô feliz. Você, que mesmo com todas as dificuldades, preferiu que eu fosse morar em outra cidade por causa da minha faculdade. E aprendeu a me deixar voar, a me deixar ser quem eu sou e a confiar em mim. 
Você, que andou comigo em várias lojas pra a gente comprar o meu vestido de formatura do terceiro ano do colégio (assim como vovó fez com você na sua formatura). Um vestido que hoje não tem mais nada a ver comigo. Assim como eu também não tenho quase mais nada a ver com aquela menina que por vezes foi muito injusta com você, mãe.
Hoje, eu acho que já sou adulta e entendi que não posso ser você. Assim como você entendeu isso. E nem posso ser a idealização de filha que você queria. 

Mesmo que agora eu esteja aprendendo a voar sozinha, é bom saber que eu tenho e sei bem onde ta o meu ninho. 

 Com amor, 
 Sua filha.

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