A redoma de vidro de Sylvia Plath, a sua e a nossa

Em 1963, Sylvia Plath publicou um romance semi-autobiográfico que falava sobre depressão, suicídio e a redoma de vidro que o mundo nos insere, basicamente quando não nos encaixamos nas pretensões dele. O livro fala, entre outras coisas, como é ser mulher nos Estados Unidos, em uma época que os papeis sociais das mulheres e dos homens eram bem mais pré-determinados, o que por si só nos coloca em uma prisão social semelhante a redoma de vidro.

A redoma de vidro é uma metáfora para o aprisionamento sofrido por alguém que está sendo isolado e limitado do resto do mundo, o que torna o espaço dentro da redoma um lugar sufocante. Dentro de uma redoma , geralmente, se pode ver todo o exterior e o que se passa ao redor. Então, imagine como é conseguir ver as infinitas possibilidades que o mundo oferece, mas ser constantemente impedido de alcançá-las, por não possuir certos privilégios, como o de gênero. Imaginou? Então presta atenção a seguir.

''Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim.''

Até o início do século 20, o voto em quase todos os países era um direito quase exclusivo de homens, especialmente os ricos. As mulheres eram ignoradas e limitadas a condições de mães e donas de casa pela sociedade. Só entre 1890 e 1994, mulheres da maioria dos países adquiriram o direito de votar e se candidatar a cargo público. Embora, isso só veio acontecer na Arábia Saudita em 2011.

Em 1983, Maria da Penha sofria com as agressões de seu marido, mas temia uma separação pelo que via na representação da mídia, em que mulheres que tentavam interromper o relacionamento eram assassinadas pelo seu companheiro. Então, Maria da Penha foi forçada a lidar com duas tentativas de assassinatos e 19 anos e 6 meses de impunidade, até o Estado, sob muita pressão da mídia, inclusive internacional, ouvisse seus gritos abafados dentro de uma redoma de vidro imposta socialmente.

Em novembro de 2017, uma Comissão especial aprovou a PEC 181\2011, que proíbe o aborto em todos os casos, inclusive o de estupro e risco de morte para a mãe. Então, se eu sou mulher e pobre, vitimada pelo estupro, por exemplo, vou ter que recorrer a meios ilegais da medicina e correrei o risco de acabar morta ou estéril por causa de uma infecção. E quando isso acontecer, como está sempre acontecendo com alguma mulher em algum lugar do mundo, em que o Estado resolve decidir sobre os seus corpos, tirando sua própria autonomia, há sangue em nossas mãos e precisamos gritar o mais alto possível pra sair da redoma.

 ‘’Se nossas vidas não importam, que produzam sem nos.’’ 

Dia 14 de março de 2018, a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, foi executada a tiros dentro de um carro, junto com o seu motorista, Anderson Pedro Gomes. O caso aconteceu em meio a intervenção militar no estado, a qual Marielle era contra. Foi executada justamente, depois de um debate que falava sobre as conquistas da mulher negra. Crime que tentou sufocar a voz e a luta da quinta vereadora mais votada no Rio em 2016. Alguém que lutava pelos direitos das mulheres, diante de uma sociedade patriarcal, e que acabou sendo morta por defender o que traz a dignidade humana. Mais uma mulher morta.


“Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.”

Estar em uma redoma me permitiu enxergar o que eu quero ter, mas que eu acabei achando que jamais poderia alcançar, porque apesar dos privilégios que eu possuo, como de ser um branca e não sofrer racismo, eu tenho consciência que há barbárie demais acontecendo pra eu conseguir me livrar da redoma e vivenciar essas possibilidades.
Mas em algum momento do caminho, eu acabei adquirindo uma nova forma de defesa pra conseguir lidar com o mundo, a negação. Eu tô frustrada por não conseguir ficar mal o suficiente, com toda a intensidade que a situação pede, na altura da gravidade que é ter que lidar com uma mulher ativista, sendo executada pela Polícia Federal, dias após denunciar a violência polícia na comunidade de Acari.
Há algo de muito errado quando as pessoas perdem a sensibilidade pra coisas absurdas. E eu sinto muito por isso. Sinto muito por mim mesma também, porque eu acho que por mais que eu me importe nunca vai ser o suficiente. Porque, às vezes, fingir que não ver é mais fácil do que lidar. Mas não podemos. Jamais. 
Deixo aqui alguns links que falavam sobre o caso da vereadora morta e outros assuntos relacionados ao texto.

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